sábado, 8 de setembro de 2007

Afetos à mostra


“Afetos Roubados no Tempo”, um título forte para uma exposição que carrega elementos intensos da subjetividade de seus participantes, onde a proposta é agregar obras de arte de diversas partes do mundo, em um total de quatro continentes envolvidos – Américas, Europa, África e Oriente, por meio de 365 módulos, denominados “objetos-afeto”, que representam cada dia do ano. Idealizada por Viga Gordilho, artista plástica e doutora em Artes pela USP, e patrocinada pelo Caixa Cultural 2007, a exposição itinerante conseguiu reunir, no total, 730 artistas, e foi inaugurada em 2005, no Instituto Goethe, em Salvador, dirigiu-se, em 2006, para Recife, na Galeria Capibaribe, da Universidade Federal de Pernambuco; esteve, ainda nesse mesmo ano, no Museu Théo Brandão, aqui em Maceió e em São Paulo, no Espaço Eugénie Villien / Faculdade Santa Marcelina.

Desde o dia 29 de agosto, a exposição retornou a Salvador e, dentre seus participantes, estão 40 artistas alagoanos, a exemplo de Ana Glafira, Celso Brandão, Dalton Costa, Delson Uchoa, Francisco Oiticica Filho, Lula Nogueira, Maria Amélia, Persivaldo Figueirôa, Rogério Gomes, Tânia Pedrosa, Tchello d’Barros, Viviani Duarte e Wado. É a arte alagoana ampliando seus horizontes e rompendo fronteiras, nacionais e internacionais, pois de Salvador, a mostra seguirá para cidades européias e se instalará permanentemente na Universidade de Pretória, na África do Sul.

Tchello d’Barros, artista visual, recebeu o convite da curadora da mostra, Ana Glafira, e entrou no projeto como produtor executivo e exibindo um trabalho ousado: um livro objeto, contendo micro-poemas eróticos e um ensaio fotográfico com a mesma temática, que permitia ao público manuseá-lo e perceber a relação existente entre texto e imagem. Assim como ele, outros artistas alagoanos foram convidados a criar objetos que atendessem à proposta do projeto: “mostrar obras visuais que ecoem suas ‘matrizes’ de origem, aproximando culturas peculiares e artistas que nunca se encontraram”, a partir do diálogo de diferentes graus de trajetória e exercício poético e estético.

Ele acredita que a participação dos alagoanos no projeto é uma importante oportunidade da arte alagoana contemporânea conseguir uma visibilidade mais ampla no circuito das artes no Brasil e afirma que a participação de artistas alagoanos em projetos fora do Estado, dá-se pela falta de iniciativas dessa natureza por parte das instituições culturais em promover, resgatar e divulgar os valores culturais locais.

Quando esteve em Maceió, a exposição incentivou a produção inclusive de artistas iniciantes, que contribuíram com objetos, fotografias, e pinturas exercitados em diversos suportes e soluções originais. Tudo isto em pequenos formatos, 10cm² ou cúbicos, de acordo com Ana Glafira, curadora da mostra, um pré-requisito da exposição em função da quantidade de artistas e para ser possível aproximá-los em diversificadas montagens, que criou um cubo costurado à mão, com a Série Palavras Cotidianas ampliadas em lona.

Sobre as sensações proporcionadas aos visitantes pelos trabalhos apresentados, Ana Glafira, revela: “Depende do repertório de cada um e da disponibilidade de interagir com as proposições poéticas dos artistas. Então, não podemos responder quais são, mas podemos dizer que elas variarão do estranhamento, da repulsa, da negação até o não-estranhamento, a alegria, o prazer e o encantamento. ‘Cada um tem o sublime que pode e merece’, esta frase é minha, e a transformarei em flâmula e pára-choque de caminhão. Os sentimentos de sublimes podem ser atualizados ou não diante da complexidade da produção artística atual.”


Fase itinerante

A arte alagoana está realmente em um período itinerante. Tchello d’Barros estará expondo, a partir do dia 22 de setembro, uma obra no projeto cultural 1ª Primavera dos Museus, uma exposição coletiva de artistas brasileiros, cuja temática é “Meio ambiente – Museu, Memória e Vida. Segundo Tchello, sua proposta é dinamizar a relação do público com a modalidade literária do poema, que será apresentado com o recurso de uma instalação num paredão da instituição. Assim, o poema passa de informação literária, para uma obra visual e adquire conformação tridimensional. Sobre a obra, afirma: “O sentimento transmitido neste trabalho é muito positivo, até porque é uma poema que tem ampla aceitação popular e é um dos preferidos entre meus leitores. E gosto muito da proposta de libertar o poema da página do livro e apresentá-lo em outros ambientes e espaços”.

Já Ana Glafira está integrando o grupo de artistas que expõe, desde o último dia cinco, suas obras na Bienal B, em Porto Alegre. Ela foi selecionada através de um edital e apresenta, para o Sul do país, a região do Porto de Maceió, sob um olhar que foge da obviedade. As fotografias de Ana Glafira revelam fragmentos de um todo, num minimalismo poético e intenso, onde um filete de céu dialoga com a ferrugem de uma estrutura, por exemplo. Ela explica: “O porto sempre é registrado por olhares muito óbvios. Ir nos detalhes da monumentalidade das suas máquinas, objetos, navios e paisagens foi o meu interesse. É propor novos olhares através da geometria sensível e com isso tentar surpreender o possível público destas imagens decupadas, buscando abstraí-las de seu entorno”.

Nota-se que Alagoas está entrando em uma nova fase, de maior divulgação de sua arte, seguindo caminhos alternativos, em especial com mostras coletivas, que são a melhor forma de expressar a força cultural dos artistas locais.



Publicado no jornal A Notícia - Ano VI - Edição Nº 293


quarta-feira, 5 de setembro de 2007

De malas prontas


A maioria dos jovens sonha em ter uma banda, onde possa divulgar suas idéias, reunir-se com os amigos, tocar “para uma galera”, fazer shows, viajar pelo país – ou pelo mundo – mostrando o seu trabalho, mas até chegar lá tem muita estrada e algumas delas não passam da porta do estúdio. Esse não é o caso da $ifrão, remanescente da segunda geração de bandas de pop rock alagoanas, e que está de malas prontas para São Paulo, após fecharem contrato com a gravadora JT Records, para a gravação de seu 4º CD.

O aniversário de dez anos de carreira da $ifrão será em novembro, mas eles estão comemorando desde janeiro, promovendo shows e divulgando suas músicas, que, no início, possuíam forte ligação com o ska de bandas como Paralamas do Sucesso e Ultraje à Rigor, e que, com o passar do tempo, foram absorvendo influências do rock e do reggae. Durante esse período a banda teve algumas mudanças, alguns músicos saíram, outros entraram e, na formação atual, estão: Marcos Bruno - guitarra e voz, Thiago - percussão, Henrique - bateria, Carlos Cazamba - guitarra, Tony - baixo, Anderson – sax, e Ricardo – trombone. Eles se conheceram através de contatos em comum, pois sempre estavam nos shows e tocavam em outras bandas, o baixista diz que Maceió é uma cidade pequena, na qual todos se conhecem na cena musical.

Marcos é o único que ficou da primeira formação da $ifrão, também foi ele que batizou a banda: “A gente saiu chutando vários nomes, aí, não deu certo. Tivemos a idéia de ser um símbolo que representasse movimento, até pelo tipo de som que fazemos, tinha que ser também algo forte e conhecido, saíram uns quatro só... $ifrão foi o mais simpático e caiu como uma luva. Muita gente pergunta se o nome esta atraindo dinheiro, mas até agora nada. Quem sabe num futuro não muito distante?”, diz.

O maior sonho deles é poder manter-se com o trabalho que realizam, apesar de todas as dificuldades que têm de ser enfrentadas para se chegar ao reconhecimento com retorno financeiro. “Queremos um dia viver de música. Passar 24 horas compondo, tocando, gravando, levando nossa mensagem por aí, sabe? Temos consciência de que isso é o que temos de melhor, só que infelizmente ninguém consegue viver de música em Alagoas, poucas pessoas conseguem no Brasil. Por isso, temos que colocar o pé no chão e continuar nos nossos empregos, mas sem abrir mão da música”, explica Marcos. Tony, que está há cerca de sete meses na banda, completa: “Tocamos por prazer, por satisfação, por amor à música, por acreditar em nosso trabalho. Temos nossas profissões, mas acreditamos em nosso potencial musical”.

Marcos é formado em Administração, Henrique é turismólogo, Thiago é formado em Administração e Marketing e é estudante de Direito, Tony estuda Marketing, Cazamba se formou em Publicidade e trabalha na Polícia, Anderson é funcionário público e Ricardo, professor de informática. Marcos, Henrique e Tony são ainda empresários. Pode-se notar que eles não seguem o padrão estereotipado do universo rock’n’roll, têm suas responsabilidades, com profissões sérias, mas sem deixar de investir na paixão pela música.

Marcos Bruno é o compositor oficial da banda, ele faz a maioria das letras e músicas, que, em geral, falam de amor, de uma consciência de mundo e de esportes, principalmente o surf, mas os demais músicos sempre imprimem sua marca. Os esportes são de grande importância para os membros da $ifrão, segundo ele, a música e o esporte sempre estiveram presentes em suas vidas e as músicas que produzem servem de trilha sonora para os esportes que praticam, como surf, jiu-jitsu, rapel, trilhas de bike e corridas de aventura.

Nazaré e os amigos

Quanto à discografia, a banda possui dois CDs demo e um profissional. O primeiro foi lançado em 1997, ano em que a banda se formou e foi intitulado Lançamento Vertical. Três anos depois, eles montaram um trabalho mais focado no universo do surf, chamado Dialeto do Mar, que trouxe uma transformação na vida deles. Os integrantes da $ifrão resolveram divulgar esse CD em Minas Gerais e acabaram se mudando para lá, onde permaneceram por dois anos.

Em Minas, fizeram muitos contatos e passaram por aquelas situações que todos aqueles que levam uma vida “em banda” têm de enfrentar. O vocalista da banda contou uma dessas histórias: “Colocávamos toda a grana para alimentação numa conta do banco, justamente para evitar gastos desnecessários, não andávamos com o dinheiro ‘vivo’, e sim com o cartão. Num sábado à tarde, durante um churrasco irado, o cartão quebrou e o problema maior era que não tínhamos feito a feira do final de semana. A sorte é que, na casa que tínhamos alugado, tinha uma mangueira. Então, a manga foi o cardápio da galera, de sábado à noite até segunda pela manhã. Até hoje não como manga por causa disso (risos). Foi sinistro, mas eu achei muito engraçado. Depois do acontecido...”.

Em 2005, foi a vez de Além do Vento, primeiro CD profissional, lançado pela Radiola Records e distribuído pela Tratore, que teve a produção musical de Dalton Palmieri e 200 horas de estúdio, entre gravação, mixagem e masterização. A $ifrão possui dois clipes lançados na MTV Brasil, Espero o Verão Chegar e Além do Vento, ambos gravados de forma independente contando com a participação de amigos. “No primeiro clipe, Espero o Verão Chegar, a gente gastou R$ 40,00, mas mesmo assim estreou na MTV, ficou muito engraçado. Inclusive a Nazaré, empregada lá de casa, foi a ‘musa’. Já no segundo clipe, Além do Vento, queríamos uma coisa mais profissional e contratamos o Derick. Lógico que a Nazaré teve que fazer outra participação, né? Deu sorte! E o clipe estreou na MTV Brasil, de novo!”, relembra Marcos.

Suspense

No ano retrasado, Marcos e Henrique levaram 200 unidades do CD Além do Vento para São Paulo, com o objetivo de fazer uma divulgação do trabalho, e os distribuíram em rádios, zines, jornais, selos, gravadoras, produtoras e para outras bandas. O resultado foi positivo, o som deles começou a tocar nas rádios paulistas e foi quando veio o convite da JT Records. No máximo, em 10 de setembro, eles estão embarcando para São Paulo, onde será gravado o quarto CD, que promete ter no encarte algo que remeta ao mar ou ao surf, pois ainda não decidiram qual será a música de trabalho.

No caso do terceiro CD, a música de trabalho escolhida foi Além do Vento, o que culminou com uma arte contendo elementos ligados ao vento, como a pipa e o ventilador. Além do Vento recebeu vários elogios da crítica e o objetivo dos músicos da banda é alcançar o mesmo sucesso e “furar” o mercado, para tanto, terão o apoio de uma agência de publicidade. Tony diz que o desejo deles é conquistar, pelo menos, a região Nordeste, mas afirma que, segundo contrato com a gravadora, o CD será distribuído para todo o país.

Quanto ao CD, de um modo geral, Marcos faz suspense: “O público pode esperar um trabalho muito profissional, pé no chão, com participação de alguns nomes da cena brasileira e que vai agradar a gregos e troianos. Preparem-se”. Esses artistas nacionais não podem ser revelados devido aos termos do contrato assinado com a gravadora.

“Despedida”

No dia 06 de setembro, próxima quinta-feira, a banda $ifrão realizará o seu último show antes da viagem, a Festa Dez, que marca o encerramento do 13º Encontro Norte e Nordeste de Ciências Sociais - AVAL II - CISO – UFAL.

O evento contará com a participação de dez bandas: $ifrão, Poeira Nordestina, Gato Zarolho, Alfagraus, Maqiavel, Os Giramundos, Super Amarelo, Dona Maria, Vitor Pirralho e Dom e Expressão, além da Tenda Eletrônica Colcci. Serão realizados sorteios de dez brindes, da Colcci, Chilli Beans, Bali Hai e Ponta Verde Tatoo e Piercing, e exposição de artes. As dez horas de festa serão regadas a tequila, pelos tequileiros da Adega do Farol, gratuitamente. O show será na Taberna, em Jaraguá, e os ingressos estão sendo vendidos na Colcci e no Baba Som, o preço é de R$ 10,00. Mais informações sobre a banda podem ser obtidas no site: www.sifrao.com.br


Publicado no jornal A Notícia - Ano VI - Edição Nº 292

domingo, 26 de agosto de 2007

O quebra do Xangô

Gravações do documentário. Fonte: Assessoria

“A realidade, porém, é que a vandálica destruição dos xangôs de Maceió por parte da Liga dos Combatentes, o famoso quebra-quebra de 7 de fevereiro de 1912, mais parecido com um auto de fé, [...], marca a extinção das velhas e tradicionais casas de culto afro-brasileiro em Maceió e nas cidades próximas. Pratica-se, por algum tempo, autêntica perseguição, nos moldes da inquisição medieval. Eram comuns prisões, torturas, delações, interrogatórios capciosos [...]”.

Esse é um trecho do livro A Metamorfose das Oligarquias, de Douglas Apratto Tenório, que trata de um dos episódios mais violentos da história de Alagoas: a invasão e destruição de diversos terreiros de candomblé, tema do vencedor da Carteira Regional do Doc TV III, Doc TV – Alagoas em Cena, que tem como um dos fomentadores o cineasta Hermano Figueiredo, ganhador do Doc TV III, com o documentário Calabar. Ele apresentou ao Governo vigente na época, ano passado, a proposta de fundir os dois projetos – Doc TV e Alagoas em Cena, e fazer a Carteira Regional que já existe em outros Estados do país, obtendo sucesso. Como essa importante conquista não pode cair no esquecimento, Hermano vai batalhar para que se torne uma realidade a favor das produções áudio-visuais alagoanas.

O documentário 1912 – O Quebra de Xangô, do antropólogo e fotógrafo Siloé Amorim nasceu do interesse de era resgatar, por meio de uma pesquisa, o quebra dos xangôs, tema que não é muito discutido, embora tenha mudado os rumos das manifestações da cultura africana em Alagoas. Quando entrou no processo de busca de dados, Siloé se deparou com o NEAB – Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, órgão da Ufal - Universidade Federal de Alagoas, coordenado pelo Profº Moisés de Melo Santana, de onde recebeu a sugestão de elaborar um roteiro. Porém, até aquele momento, não era possível realizar um documentário. Foi quando soube das inscrições para o Doc TV II, no qual inscreveu seu projeto, sendo selecionado apenas na edição seguinte.

Segundo ele, a temática lhe deu grandes responsabilidades, visto que é uma questão muito complexa e que contém muitos assuntos diferentes ligados entre si: “Adentrar no assunto mostra que a invencibilidade de manifestações culturais de origem africana foi soterrada. Eu não imaginava que as expressões culturais, inclusive lúdicas, como o maracatu, também foram suprimidas a partir do quebra de 1912.”.

1912 – O Quebra de Xangô é o primeiro documentário de natureza histórica que ele faz, pois sempre realizou produções de cunho antropológico, com acervos fotográficos, já que trabalha com o campo visual. Para construí-lo, vários terreiros foram visitados: “São tantos que desaparecem na minha cabeça, fui a terreiros na Levada, no Benedito Bentes, na Ponta Grossa, no Graciliano Ramos, na Favela do Jaraguá e em cidades como Cajueiro, Atalaia, Água Branca e Limoeiro de Anadia”.

A sua experiência como antropólogo serviu na montagem do documentário. Ele diz que o olhar é diferente, mais seletivo diante da quantidade de informações, que renderam 200 páginas de entrevistas transcritas que podem, em breve, ser publicadas. “Cada fala que eu mudava me levava a um outro assunto. Então, eu tinha que voltar, criar um fio condutor para uma narrativa lógica, que não fugisse do quebra, e para que tudo que tem no documentário tivesse sentido, mesmo que algumas vezes estivesse desassociado da questão temporal. A parte fotográfica me ajudou para montar imageticamente o documentário, também na direção de cena e na interação com os demais membros da equipe”, explica.


Oceano de informações

O título já estava na cabeça de Siloé, uma referência ao ano e ao evento. Contudo, vai além da aparente simplicidade, na visão dele, o título tem uma simbologia, representa a quebra da entidade Xangô, que representa a justiça, a ira contra a opressão.

Para dar corpo ao documentário e dinamicidade à narrativa, a ficção foi introduzida ao documentário, onde figuram personagens como o Xangô e Tia Marcelina, entretanto, em sua maior parte, ele é composto por depoimentos de antropólogos e historiadores. A escolha dos atores foi bastante difícil, principalmente a atriz principal, que, na idéia inicial, seria alguém conhecida nacionalmente, mas a verba não permitiu. Então, Siloé e sua equipe caíram mais uma vez em campo, desta vez, percorrendo teatros, em busca de um perfil que lhe agradasse. Não encontrando, tentou puxar pela memória. Foi quando lhe veio à mente uma mulher que trabalhou em sua casa, que, com devida direção, conseguiu um resultado satisfatório ao antropólogo.

Embora uma verba de R$ 100 mil pareça muito, no universo das películas isso não é quase nada. Efeitos especiais nem entraram em cogitação, mas Siloé trabalhou com inovações na linguagem, por meio de aspectos ligados à contemporaneidade. Por tal razão, ao término das gravações, ele se viu praticamente sozinho, pois não foi possível bancar a equipe de produção. “Então, de repente, você se sente mergulhado em um oceano de informações, tendo que organizar sua cabeça”, desabafa.

Aproximadamente 200 pessoas participaram do documentário, todos alagoanos, entre equipe de produção, participantes das cenas, pessoas consultadas, como pais e filhos de santos, estudiosos da temática, amigos, ex-alunos, contribuindo da melhor forma possível na composição da obra. Ao todo foram 70 horas de gravação, trabalhando até 15 horas por dia, para 55 minutos de vídeo.

Sobre a produção, afirma: “Não tive problemas com a direção, com a edição, com as pessoas envolvidas, embora seja difícil organizar a equipe, lidar com estados de humor diferenciados e tendo que transitar rapidamente entre eles. O grande problema é o tempo, que é muito curto. O cinema gasta muito tempo, um minuto de filme pode gerar semanas de trabalho... é um trabalho pesado e eu sou uma pessoa que se entrega, caio de cabeça e quando termino tudo, geralmente estou arrasado. Mas feliz.”.

O documentário está promovendo um resgate cultural, pois não se prende apenas ao ano de 1912, abordado na primeira parte do documentário, que trata da perseguição em si. Ele entra no candomblé contemporâneo, mostrando danças e depoimentos acerca da questão do folclore e das representações afro-alagoanas. Também são apresentadas opiniões sobre a educação, a visão dos filhos de santo, enfim, posicionamentos que fogem da questão histórica propriamente dita.

Ele disse que pensou em um trabalho para o público, feito de modo que este compreenda o ocorrido: “Fiz da melhor forma possível, assim, o público vai saber o que foi, o que se pensa e o que o quebra dos terreiros representará para as próximas gerações”. Apesar do cansaço e das ininterruptas dores de cabeça, o resultado foi bastante positivo, além de um documentário, Siloé fez novas amizades e teve contato com realidades que não conheciam, algo que se constitui em um prazer para um antropólogo.


Histórias

Esse lado doloroso da história alagoana, marcado pelo preconceito e pela violência, possui uma infinidade de mitos e histórias mal contadas, todavia foi impossível colocá-los no documentário, visto que não havia espaço.

O local mais citado, onde todas as maldições foram lançadas, é o Palácio do Governo, já que o quebra dos Xangôs foi uma iniciativa de motivação política, nos idos do Governo de Euclides Malta. “Às vezes, algumas pessoas até se benziam quando se tocava no assunto”, relembra.

Dizem que existem exus, entidades que “abrem e fecham os caminhos”, plantados no palácio e que vários “trabalhos” foram enterrados em seus pontos cardeais. Dentre as pragas mais rogadas está: “Maceió é um dia só”, que prega que tudo que acontecer aqui, não sairá daqui, nunca irá para frente. Tendo em vista os últimos acontecimentos, que os Orixás tenham dó dessa cidade.


O Quebra

1912 – O Quebra de Xangô será exibido no dia 29 de agosto, às 20h, no Centro de Convenções. A trilha sonora, composta exclusivamente para o documentário é de Basílio Sé. A direção é de Siloé Amorim e tem como produtor executivo: Joabson Santos, diretor de fotografia: Juarez Cavalcante e assistente de direção: Laurindo Moroni.



Publicado no jornal A Notícia - Ano VI - Edição Nº 291

O poder do improviso

Foto: Kelly Baêta

Um hábito típico dos cantadores de coco e embolada é dar aos mestres nomes de pássaros. Mário Francisco de Assis ainda era um menino quando fugiu com uma dupla de emboladores, que, um dia, apareceu em sua casa. Ele e esses dois amigos saiam de cidade em cidade, praticamente como ciganos, até dormiram em um cemitério abandonado, porém as dificuldades não os impediam de fazer suas canções cheias de rimas e improvisos. Nessas caminhadas, entre um coco de roda e outro, sempre tinha alguém que se encantava com aquela “coisa miudinha” cantando, o que acabou lhe rendendo o apelido de Mestre Verdelinho, em referência a um pequeno pássaro de mesmo nome.

Ele ganhou notoriedade quando integrou o Guerreiro do Mestre Pedro Teixeira, sendo até Mestre de Guerreiro em uma apresentação em Brasília. Foi assim que sua história começou a mudar, conseguiu um emprego no Teatro Deodoro, mas não abandonou aquilo que gosta e saber fazer. Embora não saiba escrever, Mestre Verdelinho é autor de canções que surpreendem pela riqueza de conteúdo, cujas temáticas têm complexidade filosófica, mas com a forma simples e direta, típica à cultura popular.

Esse importante expoente da cultura popular alagoana será o homenageado do Regional IV “A Festa do Coco”, que, segundo o organizador do evento, Tony Soares, visa a valorizar a cultura popular alagoana e fazer com que a nova geração conheça e se interesse por artistas que abastecem esse mercado. Em sua quarta edição, o evento contará com a participação das bandas Poeira Nordestina, Xique Baratinho, Gato Zarolho, Cumbuca e, é óbvio, do Mestre. Ainda haverá sorteio de brindes, exposições artesanais e a casa estará decorada com motivos regionais.

O Mestre dividirá o palco com seus filhos, Josenildo e Genilson, e Jurandir Bozo, vocalista da banda Poeira Nordestina, no repertório estão Dona Mariquinha, Balança o Galho da Limeira, A Masseira, de Tereza Félix, todas canções do CD de Verdelinho, UNIRversando, pagodes, em sua maioria. Mas antes que confusões sejam feitas, é preciso explicar: “pagode é um estilo de coco, bem alagoano, que tem o refrão, os entremeios e, no fim, o tropel”, explica Bozo. Tropel nada mais é que um forte ruído provocado por repetidas batidas dos pés no chão.

Jurandir Bozo diz que as músicas do Mestre possuem profundidade poética e cita como exemplo O Grande Poder, que versa sobre questões ligadas à interação entre o universo e as criaturas, gravada por Telma César, no CD do grupo Comadre Florzinha e pelo cantor e compositor Wado. Bozo ajudou na produção do CD de Verdelinho, que foi lançado no ano passado. Contendo 13 faixas, o álbum foi gravado em quase dois dias, com pouca verba e praticamente sem apoios institucionais, um reflexo visível da problemática que atinge a cultura alagoana, largamente discutida pelos artistas e que provoca um certo tipo de ostracismo, no qual as produções ficam mais nas residências do que nos palcos.

Muitos são os artistas que beberam da arte do Mestre Verdelinho, como relembra Bozo: “Busquei a cultura popular, através do Mestre, porque pensei quando o vi: isso sou eu. Aquilo remetia à minha infância, ao que via nas feiras em frente à minha casa, e é o que busco trazer para minha voz. Se hoje estou desenvolvendo esse trabalho é por causa da voz rouca e forte do Mestre Verdelinho”.

Elo entre o tradicional e o atual

Embora se trate de uma expressão da cultura tradicional, o show pretende atingir a um público diversificado, inclusive no que diz respeito à faixa etária: “A primeira edição, com as bandas Mr. Freeze, Gato Zarolho e Cumbuca, atingiu um público universitário, mas hoje desejo atingir a todas as idades”, afirma Tony, que está a três anos no ramo de produção de eventos dessa natureza, e, desde o ano passado, está a frente do Regional.

Ele aproveita a sua formação em Marketing para divulgar o evento para o maior número de pessoas possível e, para tanto, utilizou mídias alternativas que têm bastante alcance, caso do site de relacionamentos Orkut. Visitou os perfis, colocando quase que diariamente a programação do show. O argumento dele é pragmático: “A melhor forma de vender um produto é fazer com que ele chegue até seu consumidor direto e indireto, com um planejamento de marketing e de mídia, é o que busco fazer com esse show”.

A intenção, na verdade, é atrair os jovens para as manifestações que fazem parte da cultura popular, como o guerreiro e o coco de roda, que, com as novas tendências musicais, provenientes da cultura de massa, perderam seu espaço. Mas não de forma mecânica, pela obrigação de valorizar apenas por ser alagoano, pois não basta estudá-la e teorizá-la. É preciso senti-la, como diz Bozo: “Não é incomum ouvir os Mestres falarem de ‘fazer uma brincadeira’, em alguns lugares do Nordeste, os participantes recebem o nome de brincantes. Temos que levar as pessoas para dançar o coco, cantar o guerreiro. Por isso, o ensino da cultura popular nas escolas deve ser feito de forma lúdica, como uma atividade recreativa”.

A questão é bem mais complexa. Esse afastamento da juventude traz um problema que, em longo prazo, pode culminar com a extinção de alguns valores culturais. “Alagoas está anos-luz a frente dos outros Estados, no que diz respeito a produção cultural. Tem uma cena fértil, uma das mais atuantes do Brasil, mas os artistas estão envelhecendo. Não precisa fazer resgate cultural, pois os Mestres estão vivos, assim como nossa cultura, o que falta é compromisso da sociedade civil e do poder público”, critica Bozo.

O Regional IV “A festa do coco” busca um formato que situe a cultura tradicional no contexto globalizado, com infra-estrutura e atrações que realizam um trabalho que mantém os moldes tradicionais, mas inserem uma roupagem mais atual, sem cair no clichê. Essa fusão entre tradicional e atual está em grande evidência, tanto que muitos Mestres já têm seu material divulgado na Internet, chegando a possuir comunidades no Orkut, caso de Mestre Verdelinho e Nelson da Rabeca.

Janela

Uma forte relação de amor e dedicação move esses representantes da nova safra da cultura popular alagoana a lutar pelo reconhecimento dos precursores desse movimento artístico. Tony Soares pretende criar um mercado voltado para a cultura alagoana mais atuante, com shows freqüentes, entretanto, isso ainda depende muito do público, por isso, o empenho na divulgação.

Pelo que parece, a tão esperada eclosão da cultura alagoana é iminente, embora falte organização e interação entre os artistas, o passo inicial há muito foi dado. Canções, poemas, coreografias, peças, esculturas e quadros pululam em abundância, em resumo, a cena pode até não ser atuante, mas a criatividade funciona freneticamente.

Para quem ainda não conhece a cultura caeté, além do convite para o Regional IV “A festa do coco”, fica uma reflexão de Jurandir Bozo, sobre o que é cultura popular: “Cultura popular não é se voltar para si, é se voltar para o outro. É se debruçar sobre uma janela, nem que seja a do cantinho do seu olho e ver além da pálpebra, ver o vendedor de açúcar, alguém na rua, o cara que vende bala no ônibus. Fazer essa cultura de forma contemporânea é praticar o sonho, embora esteja longe do ideal... Nossa cultura ainda está viva! Mas tem algo que sempre questiono: O que vem depois dos Mestres?”.


Publicado no jornal A Notícia - Ano VI - Edição Nº 291

domingo, 12 de agosto de 2007

Aldeias nas ruas

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Eles estão em várias partes da cidade, concentram-se principalmente nos shoppings, em praças, como a Vera Arruda, e na orla, em especial no Posto 7. Discutem os mesmos assuntos, assemelham-se no modo de se vestir, nos gostos musicais e nas gírias, criando, inclusive, um vocabulário próprio. Surfistas, punks, roqueiros, hippies, emos, alternativos e tantas outras infinidades de grupos compõem o que se convencionou chamar de “tribos urbanas”, que expressam não só uma filosofia de vida, mas representam épocas e constituem-se em uma forma de unir aspectos de similaridade, por meio do compartilhamento de identidades culturais.

O termo tribo faz parte dos estudos das teorias antropológicas e é utilizado na identificação de grupos sociais, mas, na expressão tribos urbanas, possui outra conotação. Segundo Ricardo Maia, Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP, tal denominação tem um sentido simbólico e serve para identificar conjuntos de indivíduos que vivenciam o mesmo estilo de vida e de estética, numa tendência a abolir o individualismo. Para explicar melhor como, há séculos, essa questão é tema de estudos, ele cita um importante pensador grego: “Aristóteles já dizia que o homem é um ser social”. Então, com a necessidade de fortalecer suas idéias, legitimar um estilo e se sentir pertencente a um determinado grupo, as pessoas passam a se associar nessas pequenas sociedades.

Maia diz que os estudiosos trabalham com várias nomenclaturas, mas destaca duas: grupúsculos e grupelhos. Sendo que a segunda possui uma interpretação interessante: “grupelhos são ‘grupos de espelhos’, pequenos grupos de pessoas narcisistas, onde uma reproduz a imagem da outra”, por isso tantas semelhanças entre seus membros. Ele dá um bom exemplo da necessidade do ser humano de se fixar nas referidas tribos: “basta observar uma festa, uma família, melhor, uma praia. Em quilômetros de litoral, as pessoas se concentram em determinados pontos, então, elas não estão lá apenas para entrar em contato com a natureza, mas, em busca de ver outras pessoas, paquerar, exibir seus corpos bonitos e queimados pelo sol”.

Permutas entre as ciências

São várias as áreas de conhecimento que tentam destrinchar as origens, comportamentos e peculiaridades dessas tribos, a exemplo da Antropologia, da Sociologia e da Psicologia, nas subdivisões Antropológica, Social, Freudiana – em sua última fase, e da Psicanálise, que, na concepção de Ricardo Maia, possui um entendimento maior sobre o tema por estudar de maneira mais profunda a mente humana. Porém, numa sociedade pós-moderna, com forte influência da mídia, não é possível analisar os casos isoladamente, pois, o grau de complexidade dos indivíduos e da sociedade está cada vez maior, de modo que é necessário que as ciências humanas e sociais dialoguem, façam permutas entre si, a fim de oferecer resultados mais precisos, levando em consideração que esse é um dilema que está longe de ser resolvido, visto que, de acordo com a teoria freudiana, a linha entre o individual e o coletivo é imaginária. E para quem deseja se aprofundar do assunto, vários teóricos podem ser estudados, como Freud e Jung. Ricardo sugere um livro de Michel Maffesoli: O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa.

Rótulos

No que diz respeito à faixa etária dos membros das tribos, nota-se que eles são geralmente jovens, mas não são adeptos de expressões que os denominem. “Rótulo é sempre chato. Não me encaixo em nenhuma tribo, mas eu já tive umas bandas de rock... Acho que estereotipar alguém como de certa tribo é desnecessário e só gera preconceito”, diz Léo Cardoso, 21 anos, estudante de Direito da Ufal. Da tribo dos surfistas, Diogo Rezende, 21 anos, estudante de Nutrição do Cesmac, acredita que “a sociedade determina que todos precisam ter um estilo, pondo nome e valor em tudo que existe, e as pessoas que se prendem muito essas coisas, acabam correndo rumo ao rótulo”.

Se bem que, hoje em dia, é difícil mensurar a quantidade e os tipos de tribos que existem, mas nota-se que elas têm íntima ligação com os estilos musicais. “É uma forma de especificação natural. A sociedade sempre costuma diferenciar as classes, seja por cor da pele, religião ou monetariamente. A classificação em tribos musicais é só mais uma e, como isso virou uma moda, a molecada termina seguindo uma linha, andando com pessoas que gostem do mesmo som, vistam as mesmas roupas... E isso não pára de crescer. É um processo de imitação, seja naturalmente, feito pela preferência de cada um, ou até pela influência dos amigos”, afirma Léo.

Identificá-los é uma verdadeira saga. Franjas, mechas coloridas, vocabulário cheio de xis, bonequinhos meigos, tons de rosa e azul bebê, esses são os emos, que, ultimamente, têm sido bastante rejeitados. Moicano, coturno, o famoso A de anarquia, representam os punks. Olhos pintados de preto, roupas pretas, correntes e cruzes prateadas fazem parte do universo gótico. Estilo paz e amor, saias longas, chinelos de couro, assessórios artesanais: hippies e adeptos do reggae. Os playboys são aqueles caras de camisas justas, revelando braços malhados, calças jeans e tênis de marca, boné combinando com visual. Já os surfistas andam de bermuda floral, camisa regata, num estilo bem largado. Também largados são os skatistas, só que eles usam bermudas folgadas e boné. Os alternativos vestem e falam o que querem, misturam estilos e não se importam com moda, fator fundamental na indumentária das patricinhas.

É impossível apresentar as características de todas as tribos, talvez um manual ajudasse. Um canal para “filtrar” algumas delas, pelo menos as mais importantes, e conhecê-las melhor é fazer uma busca no site de relacionamentos Orkut, que, depois da Internet, pode ser considerado uma das maiores tribos globais do últimos tempos.

Próprios botões

É importante que as pessoas percebam que suas atitudes não devem ser cerceadas pela influência de um grupo, independente de sua natureza e importância, nem tampouco se enraizar em suas individualidades. É nesse ponto que Ricardo Maia retoma Aristóteles que atestava a existência de dois tipos de vícios: um por excesso e outro por falta e completa: “o homem deve pensar sozinho, com seus próprios botões, lembrando-se de que esses botões também são sociais”.

Diogo Rezende encara essa questão de forma madura, enxergando que as tribos mais carregadas de estereótipos fazem parte da juventude: “a pessoa vai crescendo e vendo que a única tribo que existe é essa aqui que a gente vive... A tribo do planeta terra!”.


Publicado no jornal A Notícia - Ano VI - Edição Nº 289

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O canto de Alagoas em alma portuguesa


O ano de 1975 foi crucial na história da Angola, país localizado ao sul da linha do Equador, no sudoeste da África. Após lutar pela independência e expulsar os colonizadores portugueses, três partidos políticos passaram a disputar, de maneira sangrenta, o controle da capital, Luanda. Eram eles: MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola e UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola. As guerrilhas eram corriqueiras, mas a situação estava insustentável e várias famílias já começavam a fugir, de cidade em cidade, enquanto o conflito tomava as proporções de uma guerra. Após um bem arquitetado plano de fuga, um militar embarca em um avião a esposa, a filha, com apenas 10 meses, e alguns parentes, que levavam na bagagem apenas fotografias e objetos pessoais, para que eles se refugiassem em Portugal. Antes da decolagem, uma surpresa: ele ficaria em Angola.

Já em Portugal, foram recebidos por uma família que nem conheciam, mas que os ajudaram durante o longo mês no qual ficaram sem notícias daquele que estava no meio do fogo cruzado. Já não se sabia se estava vivo ou não, porém, sem avisar previamente, ele chegou e se deparou com uma difícil situação: aqueles que retornavam a Portugal, depois de viverem em alguma colônia eram rejeitados e chamados pejorativamente de “retornados”. Cansados de tantas provações, mudaram-se para o Brasil e se instalaram em Maceió, onde refizeram suas vidas.

Essa história, que parece um enredo cinematográfico, é da cantora Irina Costa, que, no dia 12 de agosto estará representando o Brasil no concurso Lusavox, uma iniciativa do Ministério dos Negócios Estrangeiros em parceria com a PT.COM, através do portal SAPO, gravadora Valentim de Carvalho e a Rádio e TV de Portugal (RTP), e está sendo divulgado por Nelly Furtado e Mariza. O objetivo do Lusavox, que está em sua primeira edição, é descobrir novos talentos musicais luso-descendentes, premiando o primeiro colocado com a gravação de um CD, com possibilidade de gravar um segundo, e o candidato mais votado pela Internet com cinco mil euros. Cantores de todas as partes do mundo se inscreveram, em um total de 200 músicas. Por fim, foram selecionados dez finalistas: dois representantes da França, Grã-Bretanha, Luxemburgo, Estados Unidos, Canadá, Índia, África do Sul, Alemanha e Brasil. Irina escolheu duas músicas para participar: Valsinha de Esquinas, de Mácleim, e Cais, de Sóstenes Lima.

Embora tenha se inscrito quatro dias antes do prazo final – o concurso estava aberto desde março e ela entrou em maio, Irina já é a segunda mais votada, com quase 60 mil votos. No início, seu intuito era divulgar as músicas para o maior número de pessoas, para mostrar a qualidade da música brasileira e alagoana, além de fazer contatos profissionais e até amigos, pois acredita que a música é capaz de romper barreiras. Entretanto, sua atitude fez com que as canções viajassem por vários lugares do mundo, conquistando admiradores que contribuíram não só com votos, mas com comentários, que a cantora fez questão de responder, um a um.

“A ficha só caiu quando vi, no site, que era uma das finalistas”. E a música que levará para Braga, em Portugal, no dia 12 é Valsinha de Esquinas, letra de Mácleim, música de Ricardo Duna e arranjo de Felix Baigon. Gravada por Irina e Mácleim, em janeiro deste ano, a canção foi apresentada à cantora em 2004, quando dividiu o palco com Mácleim, show que foi apelidado carinhosamente de Sururu com Bacalhau. Cais é totalmente assinada por Sóstenes Lima e Irina a considera um presente, por isso, não hesitou em inscrevê-la no concurso.

As origens falaram mais alto

Desde os quatro anos de idade, ela gostava de cantar, mas nem é para pensar que o fado sempre foi uma de suas maiores paixões. Na infância, não suportava esse estilo musical, preferia música brasileira, samba e MPB; na adolescência, ouvia pop rock e hard rock. E o fado, e a música portuguesa? Por obrigação, nos finais de semana, quando a família se reunia. “Era uma casa muito musical, minha mãe toca piano, acordeom e canta; meu avô tocava piano e acordeom e meu pai sempre gostou muito de música. Portugueses, ouviam fados. Eu ficava passando pela sala, imitando os cantores para ver se eles paravam de escutar, mas eles nem ligavam”, recorda.

Aos 21 anos, ganhou um disco da Dulce Pontes. Na época, Canção do Mar, interpretada pela cantora, fazia parte da novela As Pupilas do Senhor Reitor, e Irina gostava da música. Então, sua mãe a surpreendeu: “Parabéns, isso é fado!”. Foi assim cedeu às suas origens e começou a ouvir fados e a nova geração da música portuguesa, que inova sem se afastar dos moldes tradicionais. Entre seus artistas favoritos estão: Dulce Pontes, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Ana Moura, Pedro Abrunhosa, Zeca Afonso e Madredeus, que eternizou as canções Haja o que houver e O Pastor, tema da minissérie global Os Maias.

Por muitos anos, cantou sem compromisso, por diversão, mas, em 2001, resolveu enveredar pela música, de forma profissional. O repertório foi montado em menos de um mês e eis que surge o primeiro convite: fazer a abertura do show do cantor Jorge Vercilo. Como nunca havia se apresentado em público, recusou a proposta, pois necessitava de tempo para adquirir segurança e ter uma noção maior do que era fazer um show. Depois que se apresentou pela primeira vez, sentiu a importância que a música portuguesa tem em sua vida, até se emociona ao falar o que o fado representa para ela: “Se o mundo acabasse na hora que eu estivesse cantando fado, eu morreria feliz... É muito bom! Sabe uma mangueira? Você não vê a água invadindo a mangueira? É assim que eu me sinto: invadida pelo fado!”. Isso porque o fado é uma música que se canta com muita emoção, envolve muitos sentimentos, enfim, é forte, intenso, implica uma grande dedicação do cantor.

Intercâmbio Brasil-Portugal

Embora seja uma luso-descendente, Irina estará representando o Brasil no concurso e mostra-se bastante centrada e consciente de seus objetivos. Ela deseja que outras pessoas conheçam sua voz, sua forma de interpretar e a música que é produzida em Alagoas, que considera ser de grande valor musical. Também possui o intuito de fazer notar que a música portuguesa não é só fado.

Brasil e Portugal têm uma forte ligação histórica e, tanto Valsinha de Esquinas, quanto Cais, conseguiram dar uma roupagem lusitana a essas composições brasileiras, uma oportunidade para os portugueses conhecerem a produção musical que não está no mercado, aquela não difundida pela comunicação de massa. Talvez venha a nascer uma espécie de intercâmbio, no qual os dois países poderão apresentar o que possuem de melhor.

“Ser escolhida em um concurso mundial e ser reconhecida já é uma vitória!”, avalia. Sobre o seu primeiro CD, afirma que esse é um projeto que pretende realizar em breve, pois as cobranças do público estão cada vez maiores e ela acredita que está no momento certo de fazê-lo, mas não determina prazos: “Se eu ganhar o Lusavox, o CD vem depois de agosto, se não, vai demorar um pouquinho”. No repertório, o público pode esperar canções com “uma alma portuguesa”.

Lusavox

Quem estiver interessado em conhecer a canção que representará o Brasil no concurso Lusavox e votar nela, é só entrar no site www.lusavox.sapo.pt, clicar na foto de Irina Costa, passar o cursor nas estrelinhas e quando todas estiverem amarelas, clicar, em seguida, aparecerá a mensagem “votação aceite”. As votações estarão abertas até o dia 12 de agosto, mesmo dia em que o show com os finalistas será apresentado, no canal RTPI, mas também poderá ser visto pela Internet.


Valsinha de esquinas

(Mácleim / Ricardo Duna)

Assim que a lua vem
Eu quero alguém só
Que tem todo o poder
De me dizer vai
Saber que ser feliz é o que importa
Para nós


E a lua que andava nua se vestiu de prata para o nosso amor
As ruas sempre tão desertas acordaram em festa para o nosso amor
Os bondes nos arcos da lapa pelas madrugadas sabem da paixão
Nas quinas de Santa Teresa sob a luz suave de um lampião

E assim o amor se fez pelas calçadas
Sem pressa, sem pudor, sem quase nada
E o dia amanheceu e aqueceu... SOL
Para nós

Publicado no jornal A Notícia - Ano VI - Edição Nº 288

Bodas de celulóide

Foto: Vitor Braga


As imagens pictóricas encontradas nas cavernas já apresentavam representações de movimento, por meio de desenhos em seqüência. Data de 5.000 a.C., os jogos de sombras realizados na China, onde histórias de guerreiros eram contadas através da projeção de figuras humanas e de animais em paredes ou telas de linho. Leonardo da Vinci, não se restringiu às artes plásticas e mostrou-se um grande inventor, sendo responsável não só pelo protótipo do pára-quedas e do tanque de guerra, mas da câmara escura, criação que tinha um funcionamento semelhante ao olho humano. Depois vieram outras tentativas, o cinetoscópio de Thomas Edison, responsável pela introdução do som no cinema, e o cinematógrafo, invenção dos irmãos Lumière, que deu nome à sétima arte. Daí, o cinema deslanchou e espalhou-se pelo mundo, encantando gerações.

Existente desde 2003, o cineclube Antes Arte do que Tarde, que surgiu após uma oficina dada pelo cineasta Hermano Figueiredo no FUCA – Festival Universitário de Cultura e Arte, está completando um ano de parceria com o Sesc – Serviço Social do Comércio, e para as comemorações, prepararam uma programação especial. De acordo com Rafhael Barbosa, coordenador do cineclube, a intenção do evento é fazer um apanhado do que foi mostrado de melhor durante esse período, mas também trazer novidades, como o curta Texas Hotel, do cineasta pernambucano Cláudio Assis, diretor dos filmes Amarelo Manga e Baixio das Bestas, que estará presente no dia 05 de agosto, quando a parceria completa um ano. Entre curtas, médias e longas-metragens foram quase 100 filmes, dos quais 29 foram escolhidos para compor a mostra que se inicia a partir do dia 02 de agosto (ver box com a programação).

Com exibições semanais, “a proposta do cineclube é apresentar filmes que estão repercutindo no cenário nacional, nos festivais e abrir espaço para produções de qualidade que estão fora do circuito ou que foram pouco mostrados, incluindo filmes alagoanos, que fazemos questão de exibir”, afirma Rafhael. Mas o Antes Arte do que Tarde não se restringe apenas à exibição de filmes, são promovidas discussões, que abordam desde a concepção do filme, até a linguagem e aspectos técnicos. Entre os espectadores, estão psicólogos, advogados, cientistas sociais, cinéfilos e cada um contribui com a sua visão.

Membro da primeira safra do cineclube, o estudante de Letras Ivan Castro, considera que a iniciativa é bastante interessante, principalmente em Maceió, que possui poucas salas de cinema e um espaço limitado para a exibição de filmes não-comerciais, constituindo-se em mais uma opção para a cena cultural da cidade. Ele recorda que o primeiro filme que o cineclube apresentou foi Cangaceiro, de Lima Barreto, na época, ainda não tinha recebido o nome Antes Arte do que Tarde, que surgiu após um encontro que visava a reestruturar o movimento cineclubista, ocorrido em Rio Claro – SP, e foi retirado de um texto que circulava no evento.

Semelhança de interesses

Nadja Rocha, técnica de Cinema do Sesc acredita que a parceria funciona porque existe uma semelhança de interesses entre a instituição e o cineclube, pois o Antes Arte do que Tarde realiza um trabalho educativo, construído pouco a pouco, por meio de uma atividade feita em conjunto. Devido às discussões, o público interage com a obra de maneira reflexiva.

Ela afirma ainda que o Sesc, envolvendo-se com o projeto, buscou dar possibilidades para que a atividade permanecesse na grade, por exemplo, no início, as exibições ocorriam aos sábados, mas para atrair o público, foram transferidas para as segundas-feiras. A idéia de fazer a parceria foi do cineclubista Wendel Palhares, tendo em vista a carência de estrutura física do Espaço Cultural da Ufal e a falta de prioridade no auditório da reitoria, localizado no campus da Universidade, pois eles precisavam de um espaço que lhes proporcionassem exibições ininterruptas. E foi o que conseguiram no Sesc.

Impulso inicial

O grande responsável por esse despertar para o universo cineclubístico foi o cineasta Hermano Figueiredo, que, há 30 anos, dedica-se ao cineclubismo. “Os cineclubes são uma espécie de mangue onde todo um mar de informações sobre o cinema pode nele desaguar, eles geraram obras primas, principalmente na década de 1970. Muitos realizadores de cinema começaram com cineclube, como foi o caso de Glauber Rocha”, afirma. E é assim que funciona. Os participantes trocam informações sobre os diretores, planos, cortes, simbologia dos personagens, enfim, dissecam as obras.

Hermano será homenageado no primeiro dia do evento, com a exibição de filmes de sua autoria, inclusive Calabar, ganhador do prêmio Doc-TV III, promovido pela TV Educativa. Ele considera que a rede de cineclubes proporciona não só a formação de consciência crítica, mas a democratização da relação existente entre público e cinema, e vai além: “os cineclubes proporcionam a democratização da informação”.

Sobre a oficina dada no FUCA, recorda: “Eram poucos estudantes, mas a oficina despertou neles o interesse pela atividade cineclubística e, depois de quatro anos, a chama não se apagou”. Notando o interesse de outros jovens, está desenvolvendo, através da ONG Ideário, um manual para o cineclubismo, que fornecerá todas as informações quando à escolha e análise de um filme, como montar um cineclube, respondendo às dúvidas mais freqüentes daqueles que pretendem ingressar nesse movimento.

Antes Arte do que Tarde


Os atuais integrantes do cineclube Antes Arte do que Tarde são Rafhael Barbosa, Wendel Palhares, Monique Momberg e Larissa Lisboa. As exibições acontecem todas as segundas-feiras, às 19h, no Teatro Jofre Soares, do Sesc Centro. A entrada é gratuita.

PROGRAMAÇÃO ESPECIAL

Quinta-feira, 02/08

São Luís Caleidoscópio (2000, 8min.), A Última Feira (2005, 17 min.), Calabar (2006, 52min.)

Direção de todos: Hermano Figueiredo

Sexta-feira, 03/08

Palíndromo (2001, 11min.) - Direção: Philippe Barcinski, A Canga (2001, 12 min.) - Direção: Marcus Vilar, Superoutro (1989, 48 min.) - Direção: Edgar Navarro, A Pessoa é Para o que Nasce (1998, 6 min.) - Direção: Roberto Berliner.

Sábado, 04/08

Estrada (1995, 17 min.) - Direção: Jorge Furtado, Yansan (2006, 18 min.) - Direção: Eduardo Nogueira, Entre Paredes (2005, 15min.) - Direção: Eric Laurence, Estamira (2004, 127 min.) - Direção: Marcos Prado.

Domingo, 05/08

Vida Maria (1999, 8min.) - Direção: Márcio Ramos, Sintomática Narrativa de Constantino (2000, 23 min.) - Direção: Carlos Dowling, Texas Hotel (1999, 14min.) - Direção: Cláudio Assis, Edifício Máster (2002, 110 min.) - Direção: Eduardo Coutinho.

Segunda-feira, 06/08

Rua da Escadinha, 162 (2003, 18min.), No Princípio Era o Verbo (2005, 18 min.)Tarantino´s Mind (2007, 15min.) - Direção: 300Ml, Nós que Aqui Estamos, Por Vós Esperamos (1998,73 min.) - Direção: Marcelo Masagão. -Direção: Virgínia Jorge,

Segunda-feira, 13/08 – Filmes da Casa de Cinema de Porto Alegre

Oscar Boz (2004, 12min.), O Sanduíche (2000, 13min.), Ângelo Anda Sumido (1997, 17 min.), Estrada (1995, 17 min.), Veja Bem (1994, 9 min.).


Direção de todos: Jorge Furtado

Segunda-feira, 20/08 – Filmes da Casa de Cinema de Porto Alegre

A Matadeira (1994, 16 min.), Esta Não é Sua Vida (1991, 16 min.), Barbosa (1988, 13 min.), Ilha das Flores (1989, 12 min.), O Dia em que Dorival Encarou a Guarda (1986, 14 min.).

Direção de todos: Jorge Furtado

Segunda-feira, 27/08 – Filme da Casa de Cinema de Porto Alegre

Houve uma vez dois Verões (2002, 75 min.) - Direção: Jorge Furtado



Publicado no jornal A Notícia - Ano VI - Edição Nº 288