terça-feira, 25 de setembro de 2007

Na ponta da agulha


Eles já foram febre mundial e são os responsáveis pela repercussão de diversos artistas que, até os dias atuais, são considerados verdadeiros ícones no campo musical. Por todo o charme que possuem, são o “black tie” utilizado em ocasiões mais sublimes, onde se cria uma atmosfera mais elaborada, semelhante a um ritual. Assim é o universo do vinil, essa mídia que foi jurada de morte pelos CDs e MP3 players, mas que atravessa décadas encantando gerações e sobrevivendo à poeira e ao esquecimento, seus maiores inimigos.

Desenvolvido no início da década de 1950, o disco de vinil trouxe a possibilidade de gravar mais músicas, com uma qualidade sonora superior, onde cada lado poderia ter até 20 minutos de reprodução, caso dos LPs – Long Plays, discos de 31 cm de diâmetro, que tocam a 33 1/3 rotações por minuto, e foram mais utilizados na veiculação de álbuns completos. Outro aspecto que contribuiu para a aceitação dessa nova tecnologia foi sua durabilidade e resistência a quedas, choques e manuseio, sendo também mais leves que os discos de goma-laca, de 78 rotações, utilizados até o fim dos anos 1940.

É possível afirmar que a era do vinil engloba o período mais rico e criativo da música, desde os detalhes metodicamente costurados pelos eruditos, passando pela preciosidade melódica e virtuosismo dos jazzistas, até as inovações rebeldes do rock e o romantismo embalado pelas ondas da bossa nova. Também esteve presente no século mais conturbado da história da humanidade, o século XX, onde sentimentos díspares se viram de mãos dadas, lágrimas e alegrias em meio a duas guerras de proporções mundiais, reunificação de povos, revoluções no âmbito do comportamento, paz e amor, fogueiras de sutiãs. No Brasil, os amores adocicados e as belas musas cariocas que seduziam “inocentemente” os malandros, o silêncio da ditadura e a euforia do futebol. Cada fato foi eternizado nas ranhuras do vinil, que serviu como suporte para aqueles que preferiam musicar suas emoções mais intensas, transformar em canção aquilo que estava diante de seus olhos, uma atividade antiga, registrada principalmente nos Salmos da Bíblia e que se constitui em uma das mais importantes artes que o homem desenvolveu.

Em tempos de música “compacta”, com a praticidade de colocar trilha sonora em todas as atividades diárias, por meio de listas quase quilométricas, principalmente com o advento do MP3, são poucas as pessoas que ainda se dispõem a comprar e ouvir discos de vinil, mas em Maceió existe um grupo de apaixonados que não se desfazem desse hábito, considerado por seus adeptos como uma terapia que devolve o ânimo por proporcionar instantes de prazer. Através do vinil, eles fizeram amigos, adquiriram conhecimentos sobre a história da música e passaram a reunir acervos com verdadeiras raridades.


Trabalhando com sucessos


O preço de um disco de vinil varia entre R$ 0,50 e R$ 3.000,00, ou mais. Tal variação se deve a aspectos referentes à raridade, séries especiais, estado de conservação, fatores muito prezados pelos colecionadores. Kinkas, proprietário da loja O Vinil, que trabalha a pelo menos 36 anos nesse ramo, diz-se um admirador do vinil, possuindo uma coleção de cerca de dez mil discos, com preciosidades pelas quais tem o maior cuidado: “Tem discos que não troco, não empresto, prefiro nem mostrar”. No intervalo entre um telefonema e outro - o telefone tocava repetidas vezes, com pessoas perguntando sobre a chegada de discos e pedindo para que ele fizesse gravações de discos para CDs, um serviço bastante requisitado, ele falava sobre o que diferencia o vinil das outras mídias: “Veja só o vinil: ele é rico em informações, já na capa, parece até um quadro”. Kinkas faz tal afirmação pelo fato dos LPs apresentarem algo trabalhado, como a disposição de cores e letras, contendo informações técnicas que situam o ouvinte: “Eles sempre têm o ano e, às vezes, a data do disco, coisa que o CD não faz”, afirma. Ele acredita que o vinil saiu do mercado devido a uma manobra para a inserção dos CDs, mas acredita que a procura por ele nunca vai acabar.

O negócio começou com seu pai, também conhecido como Kinkas, quando este abriu uma loja de discos, na cidade de Rio Largo, onde vendia os exemplares que acumulou nos tempos em que teve uma boate chamada Xarangá. A loja não possuía nome, mas era bastante conhecida. “Quando a gente trabalha com sucessos, a venda é maior”, diz Seu Kinkas, em referência à época em que entrou nesse ramo. Contando com serviço de som, tão típico às cidades de interior, o estabelecimento depois foi transferido para Maceió e se instalou na Feira do Passarinho. Ele abriu ainda um ponto no Mercado da Produção, mas, há três anos, sofreu um acidente e parou de trabalhar.

Com 80 anos, Seu Kinkas não conseguiu se aposentar, embora tenha trabalhado boa parte de sua vida, não só com os discos, mas em várias fábricas de tecidos. Dizendo ser uma pessoa sentimental - “qualquer coisa faz meus olhos ficarem cheios de lágrimas”, ele relembrou os nomes da música brasileira que mais o agradam: Sivuca, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e João Gilberto.


A magia que encanta novas gerações

Mas quem pensa que essa paixão é só para quem conviveu com os bolachões, uma forma carinhosa de chamar os discos de vinil, está redondamente enganado. Gabriel Passos tem apenas 13 anos e, desde 2003, alimenta uma coleção que já chega a 1.504 exemplares, todos originais, visto que ele tem preferência pelos clássicos e pelas raridades. Sua primeira lembrança de um contato com os discos é de quando possuía três anos de idade, na fase das descobertas, ao encontrar alguns LPs, enquanto mexia nos CDs de seus pais. Os anos passaram e ao completar nove anos, reencontrou o elo perdido com a música e iniciou, sem a influência de ninguém, uma coleção de discos, cujo ponto de partida foi a obra dos garotos de Liverpool, os Beatles.

Gabriel ia sempre às quintas-feiras comprar discos e, em apenas um ano, já estava com 700 álbuns, mas foi entre 2004 e 2005 que deu um grande salto, passou a freqüentar os “recantos” e a conhecer colecionadores. Dessa forma, adquiriu uma bagagem cultural e intelectual não só no âmbito da música, mas em assuntos ligados à história, em especial dos anos 1960 que, junto com os anos 1950, compõem o período que o garoto mais aprecia, pois ele afirma, com muita certeza, não ser eclético. Seu acervo compreende obras, principalmente, da década de 1910 até 1970, desde artistas mais famosos, como Beatles, Rolling Stones, James Brown, Dave Brubeck, Jair Rodrigues, Elizeth Cardoso, Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Martinha – inclusive trabalhos em espanhol desses três últimos e Moacyr Franco cantando Soul Music composta por Pelé, até discos do que denomina “Jovem Guarda obscura” e músicas caseiras. Dentre os artistas fora dos holofotes estão: Hibernon Tenório, The Killers – uma banda uruguaia de 1970, Edson Wander, Ave Sangria, Procrol Horum, entre outros.

Apesar do seu hábito de comprar vinil, Gabriel adquire alguns exemplares através de trocas e doações, tendo, inclusive, álbuns que vieram de acervos de rádios. O contato com outros colecionadores, em geral mais velhos que ele, trouxe-lhe muito conhecimento, é realmente impressionante ver uma pessoa tão jovem com tanta noção de história política e social, brasileira e mundial, então, pode-se afirmar que o universo do vinil é também sua escola. Sobre a qualidade sonora dos LPs, ele explica de forma sinestésica: “Nele, a música fica mais solta”.

Para ouvir as obras de sua coleção, Gabriel conta com quatro vitrolas, uma Philips portátil - 1960, uma Philips - 1970, uma National americana – 1960 e uma Gradiente Pick Up. Sobre o que os discos de vinil representam na sua vida, ele, após uma longa pausa, diz: “Como diz um amigo meu, eu como vinil no café da manhã, no almoço e no jantar. Minha vida, meu hobby, minha ocupação principal são os discos. O vinil é tudo na minha vida!”.

Já Raul Spinassé, 19 anos, estudante de Jornalismo do Cesmac, passou a se interessar por discos há cerca de três meses. Tudo começou quando viu a coleção do pai de um amigo seu: “Fiquei encantado! Então, imaginei que ninguém dá valor e eles são preciosíssimos...”, reflete. Atualmente, compra apenas os discos que mais lhe atraem, porém, seu objetivo é estudar sobre a história da música, pesquisar sobre a carreira dos artistas e tentar adquirir seus trabalhos. Sua primeira aquisição foi o Disco Dois, da banda Legião Urbana e sua, por enquanto, pequena coleção conta com álbuns de Chico Buarque, Noite Ilustrada, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Simone, Cazuza e Vinícius de Moraes, além dos discos que tem recebido de um tio. Trabalhando com fotografia, sempre reserva uma quantia para a compra de discos de vinil, que, na sua concepção, têm o poder de transportá-lo para outras épocas.

Ele faz uma interessante observação: “O mágico do vinil é que não dá para pirateá-lo”, e a pirataria realmente não era um problema para os artistas que imprimiram suas obras em vinil, entretanto, é uma questão muito pertinente ao mundo dos CDs que, além de conviver com uma frenética reprodutibilidade, ainda tem que suportar os ciclopes, ditos musicais, que invadiram o mercado fonográfico - com raras exceções, e fomentam o saudosismo em relação aos tempos em que a música era algo bem elaborado, que alimentava a alma e dava um tom poético à vida.


Informações


Quem aprecia o vinil ou deseja comprar agulhas para sua vitrola, pode visitar, além da loja O Vinil, que possui um acervo de sete mil exemplares, as lojas: Casa Barbosa, Cantinho da Música, Eletrônica Universal e Mundial, e os alfarrábios no Centro da cidade. As agulhas custam entre R$ 8,00 e R$ 100,00. Caso seja muito difícil de se encontrar, Kinkas sugere que se troque o cabeçote da vitrola, cujo valor é superior a R$ 50,00.

Gabriel Passos tem um projeto de criar o Clube do Vinil, onde todos os colecionadores poderão trocar informações e discos. Os interessados em entrar no clube podem entrar em contato com ele, através de seu e-mail: mistervinil@gmail.com

Um comentário:

.va.nessa. disse...

eita essa loja fica perto da centenário?! comprei o meu do pink floyd lá se for..

mt bom o acervo do cara mesmo!

bjao paulinha...parabens pelo blog tb né?!

;*