segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Versos do poeta sapateiro

Cena do documentário O Lambe Sola


Entre pregos e solados, cola e sapatos, poemas matutos, que falam de momentos do cotidiano, utilizando a linguagem do homem simples, caipira na escrita e na forma de declamar, mesclando sabedoria popular, pitadas de humor, com espaço até para instantes lascivos. Essa foi a realidade capturada por Celso Brandão, no curta O Lambe-Sola, cujo protagonista é o poeta e sapateiro Antonio Aurélio de Morais, que se auto-intitulou Lambe-Sola, mas também é conhecido como Mestre Tonho Lambe-Sola e Pé Quebrado. Celso afirma que esse apelido nasceu do ofício de Antonio, visto que, no ato de colar os sapatos, os sapateiros fazem com o pincel um “movimento de lamber”.

Lambe-Sola nasceu em Atalaia, mas passou grande parte de sua vida em Viçosa, onde aprendeu e exerceu sua profissão. Apenas aos 45 anos de idade é que iniciou sua alfabetização, percorrendo de cartilhas do ABC a gramáticas e dicionários renomados, como o Dicionário Aurélio. Do aprendizado passou para a composição de poemas, chegando a escrever um livro “Versos de um Lambe-Sola”, que já está na terceira edição e possui 40 poemas, alguns deles selecionados para compor o documentário, a exemplo de “Pé-Quebrado Profissão Ingrata” e “Cassação dus Santos” – ver box. O trabalho de captura de imagens começou em 2002, porém, Celso teve que fazer uma viagem e interrompeu a produção de O Lambe-Sola. Nesse período em que o documentário ficou parado, Mestre Lambe-Sola sofreu um AVC - Acidente Vascular Cerebral e parou de fazer poemas, entretanto não deixou de declamá-los. Os trabalhos foram retomados após o cineasta ter assistido a alguns filmes sobre pessoas deficientes durante os jogos Para Pan-americanos, ocorridos no Rio de Janeiro, então, de volta a Maceió, Brandão muniu-se de câmera e partiu para as gravações do que se pode denominar como segunda parte do documentário.

O tempo é um elemento bastante importante no curta de Celso. Os 18 minutos e 45 segundos são marcados pela presença constante de um trem, que surgiu por acaso nas gravações e foi muito bem aproveitado. Entre os versos de Lambe-Sola, as passagens do trem e cenas da cidade, foram incluídas fotografias antigas, que ilustram e dão dinamicidade ao documentário. Outro fator de relevância é o jogo de similaridades e contrastes: enquanto o poeta declama Cassação dus Santos, vê-se ao fundo a imagem de uma igreja. O poema “A Si Pão Fosse Muié”, também conta com esse diálogo entre imagem e texto, pois, no instante em que o Mestre fala: “Gosto munto das muié / Dô tudo quanto elas qué / Rôpa, carçado i carinho / Mai si ela num fô fie / Ganha tombém pontapé / I mãozada nu fucinho”, aparece um homem batendo em uma boneca de pano. Segundo Celso, era apenas um rapaz na rua, que estava com a boneca - enorme, por sinal, e começou a bater nela. “Mas essa associação foi um trabalho da edição, às vezes, quando eu sugeria alguma coisa, o Pedro Octávio já tinha feito”, diz.

O contraste é dado pelas duas épocas retratadas, os anos de 2002 e 2007. O Mestre Lambe-Sola gesticulando, cheio de expressões, falando em pé ou martelando um sapato, de camiseta regata é completamente diferente do “outro” Mestre Lambe-Sola, camisa branca, boina xadrez, sentado, colocando a mão no queixo quando esquecia algum fragmento do poema. E a câmera se aproximando cada vez mais do rosto dele, dando dramaticidade às cenas, direcionando o olhar do espectador. Entretanto, em nenhum momento as conseqüências do AVC figuram no documentário. Apesar do “esquecimento” estar em close, o que se destaca sempre é a atuação do poeta.

O olhar e os personagens

Pedro Octávio é o sobrinho de Celso. Aos 21 anos, já trabalha com edição de vídeos e a produção de curtas experimentais. Em 2004, fez sua primeira atuação em produções do tio, editando o filme “O dote de José Chalé”, porém, embora seja uma atividade que demanda muita atenção e horas de trabalho, ele afirma, com muita naturalidade, gostar do que faz. O processo de edição de O Lambe-Sola durou duas semanas, nas quais foram analisadas as mais de duas horas de gravação, selecionadas as cenas e realizada a montagem do documentário. Pode-se afirmar que a quantidade de horas gravadas foi muito pequena, visto que, no universo do cinema, é possível até ser necessário gravar 100 horas para produzir 1 hora.

Celso Brandão alega a sorte como o fator para tal façanha, mas, tendo em vista que ele é o cineasta que mais produziu em Alagoas, a experiência também deve ter sido de grande valia. Dentre suas obras estão: Reflexos, baseado na canção Clair de Lune, de Claude Debussy; Semeadura; Faramim Iemanjá; Alegrando; Feira do Passarinho; Passeio no Céu – Torres Andorres; Medicina Popular; Cerâmica Utilitária Cariri; Mandioca da Terra à Mesa, filmes que alcançaram premiações no extinto Festival de Cinema Brasileiro de Penedo, além de A Sede e a Fonte; Ponto das Ervas, que concorreu ao prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Brasília, participou do Medical Filme Festival, em Nova Iorque, e foi produzido por Cacá Diegues, que denominou as produções de Celso como “pequenas obras-primas”; Chão de Casas e Memórias da Vida e do Trabalho, selecionado para o Festival Internacional de Filmes Etnográficos.

O olhar dele foi moldado pela fotografia, paixão que anda de mãos dadas com o cinema. Ele ganhou sua primeira câmera de seu pai, aos 13 anos, e desde então não parou mais de fotografar. Quanto ao cinema, recebeu uma câmera Super-8 de uma amiga, que lhe deu a responsabilidade de fazer um filme. Foi quando ele fez Reflexos e continuou a produzir incessantemente. Porém, com a chegada do VHS, uma mídia mais perecível, ele se desencantou um pouco com o cinema e se dedicou à fotografia em preto e branco. Seu retorno à sétima arte se deu devido às novas tecnologias, que são mais baratas e oferecem um resultado com qualidade, em especial as mídias digitais.

Quando perguntado sobre como conhece seus personagens, ele responde de forma sucinta: “Andando”. Em viagens, passeios, enquanto volta para casa, enfim, em qualquer ocasião, Celso procura se aproximar das pessoas e assim fica sabendo de suas vidas e histórias, o que pode lhe trazer uma infinidade de idéias e, às vezes, já lhe oferecem algo pronto, como um pescador que fez um discurso sobre o lançamento de impurezas de uma usina no rio em que ele pescava, gravado por Celso, e que poderá ser aproveitado para um curta acerca da questão ambiental.


O Lambe-Sola

O Lambe-Sola teve sua primeira exibição no dia 24 de setembro, dentro da programação da II Mostra de Documentários do Cine Sesi Pajuçara, e foi bem recebido pelo público. Sobre a sensação de ver seu documentário, Celso diz: “É bom ver um vídeo projetado em tela de cinema, com uma platéia de idosos e jovens, com a presença do protagonista”. Na ocasião, Antonio Aurélio de Morais, o Mestre Lambe-Sola, estava lançando a terceira edição de seu livro. Com música de Zé do Cavaquinho, natural de Viçosa, O Lambe-Sola contou com o apoio no roteiro e na produção de Fernando Fiúza e Sidney Wanderley.

O cinema alagoano


De acordo com Almir Guilhermino, também cineasta, a produção cinematográfica de Alagoas é mais voltada para documentários, em virtude de todas as necessidades estruturais e financeiras que uma obra de ficção demanda. “No cinema alagoano é possível fazer três cortes: os anos 1980, os anos 1990 e esta nova década”, explica. Mas ressalta: “Chamam de cinema, mas, na verdade, são vídeos, já que não são produzidos em película”. A primeira geração, composta por ele, Brandão, Joaquim Alves e Hermano Figueiredo é proveniente dos cineclubes, onde assistiam a filmes não comerciais, portanto, não submetidos à censura, um cinema atrelado à contestação. Mas se existiu uma mola propulsora para as produções alagoanas foi o Festival Cinema Brasileiro de Penedo, ocorrido na década de 1970.

Ele afirma também que as obras alagoanas no campo do cinema têm bastante qualidade, mas o que falta é incentivo do Estado e interesse do público, embora tenha citado o caso do documentário de Siloé Amorim, O Quebra de Xangô, como um exemplo positivo, visto que em sua exibição, o Teatro Gustavo Leite, do Centro de Convenções, estava lotado. Logo, a situação está se tornando melhor, “principalmente pelo apoio do Sesc e do Sesi, na figura do Marcos Sampaio”, completa.

Autor dos filmes Tana’s Take, Anônima Paulicéia de Person, Yerma, Colagens, Acendedor de Lampiões e documentários, Guilhermino atenta para a necessidade de incentivar a produção de filmes da nova geração, citando como exemplo os estudantes de Comunicação da Ufal, a quem ele considera que os cineastas mais experientes deveriam dar apoio na produção e no que fosse necessário. Além disso, lembra da importância de reativar as leis de fomento ao cinema e sugere que ocorra um novo festival de cinema alagoano, para “amarrar” todas as produções e apresentá-las ao público.

Como nomes do cinema alagoano, pode-se citar, além de Celso Brandão e Almir Guilhermino, Hermano Figueiredo, Joaquim Alves, Pedro Rocha, Werner Salles e Thalles Gomes Gamello.

Trechos do livro:

Pé-Quebrado Profissão Ingrata


“Trabáio a mai de trintano / Na arte di sapatêro / Nunca consegui dinhêro / Argum / Trabáio às vêis in jinjum / Di manhã inté mêio-dia / Passando tôda gunia / Di fome...”


Cassação dus Santos

“Vala-me Deus, tá chegando / U fim dessa geração / Sêio qui in riba du chão / Tudo vai levá u créu / Taí u siná izato / Já tão caçando us mandato / Inté dus santo du céu...”

Um comentário:

Renato disse...

Maravilhoso o seu blog, Paulinha. De fundamental importância ele existir com textos tão interessantes e esclarecedores sobre as artes aqui em Alagoas.

Esse texto em particular está ótimo, trata de várias coisas e junta tudo num ponto só: cinema em Alagoas, o poeta Lambe-Sola. Enfim, faz um relato de cenários das artes do audio-visual em Alagoas nos últimos anos e ao memso tmepo consegue falar de acontecimentos bastante recentes. Enfim, atualíssimo.