segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Recitador de encantos


Foto: Raul Spinassé

Na época em que os alto-falantes, espalhados pelas ruas, tocavam Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Dolores Duran, um grupo de garotos percorria a feira de Murici, gastando suas moedas com carrinhos e cavalos de pau, fabricando, com suas brincadeiras, os corriqueiros sonhos infantis. Entretanto, um deles era diferente.

Ele preferia comprar violinhas de cordas de arame, bem como montar baterias com caixas de papelão e panelas, que ficavam bastante amassadas devido às repetidas pancadas, o que muito desagradava à sua mãe. Daí a razão de concluir que a música entrou em sua vida, além de precocemente, em um processo inverso: ela o escolheu, foi uma intensa paixão que soube conquistá-lo, pois a ele se insinua e instiga-lhe dia-a-dia, tal que a musa de Internet Coco, sua canção mais conhecida, é “um vício, um custo benefício, com cara de ofício, com jeito de divã”.

Este é Mácleim, cantor, compositor e um dos artistas mais atuantes do mercado fonográfico alagoano, que se considera um “recitador”, alguém que recicla os elementos produzidos pelos grandes nomes da música. Dono de uma carreira marcada por participações em festivais e shows em território nacional e no exterior, é autor de três CDs: Panambiverá, Internet Coco e Ao vivo e Aos Outros, e, em agosto deste ano, uma música de sua autoria, Valsinha de Esquinas, ficou em terceiro lugar no concurso internacional Lusavox, tendo como intérprete a cantora Irina Costa. Na próxima terça-feira, 09 de outubro, ele vai apresentar pela primeira vez o show Esses Poetas, parte do projeto de mesmo nome que vai trazer um CD e um livro, produzidos pelo selo Batuta, em uma convergência entre literatura, artes plásticas e música, que serão lançados em 2008.

Versos cantados

O trabalho de Mácleim reúne obras de 13 poetas alagoanos musicadas por ele, o que se constitui em um desafio quando se é um artista libertário em suas composições, que se permite trabalhar de modo circunstancial, concebendo a esmo a porção bruta para, aos poucos, lapidá-la. Era preciso musicar os poemas sem alterar suas estruturas, com coerência e realçando-lhes a expressividade, tarefa na qual “a inspiração ocorre em função do trabalho e não o contrário” - diz. E foi o que ele fez, manteve as características originais e a alma dos poemas, até porque os considera obras consumadas.

Na voz de Mácleim estarão versos de Arriete Vilela, Ledo Ivo, Jorge de Lima, Maurício de Macedo, José Geraldo, Sidney Wanderley, Diógenes Júnior, Jorge Cooper, Gonzaga Leão, Edvaldo Damião, Ronaldo de Andrade, Paulo Renault e Otávio Cabral, integrantes de diversas gerações da expressão literária alagoana, cujas obras possuem valor histórico, cultural e artístico.

Inicialmente um projeto individual, onde a coletividade era representada pelos poetas, adquiriu novas dimensões após um período de maturação de sete anos, desde o processo de pesquisa dos poemas até a transformação destes no que denomina como “uma estética musical”. Alguns artistas foram convidados para fazer uma participação especial e logo se formou uma miscelânea que reúne a nata da música alagoana: Leureny Barbosa, Carlos Moura, Wilma Araújo, Everaldo Borges, Felix Baigon, Norberto Vinhas, Almir Medeiros, Jiuliano Gomes, Júnior Almeida, Clara Barreiros e o baterista holandês Olaff Keus. Além de artistas do cenário musical brasileiro, a exemplo de Edu Morelenbaum, David Ganc, Fernando Melo, Carlos Balla e Djavan, esses três últimos, também alagoanos.

Djavan foi o último artista a confirmar sua presença no projeto Esses Poetas. Convidado no dia da inauguração do Teatro Gustavo Leite, no Centro de Convenções, ele aceitou, entretanto, não acertou com Mácleim os detalhes sobre essa participação, deixando para uma ocasião mais oportuna. Assim que deu início à produção do projeto, Mácleim avisou a Djavan por e-mail e ficou aguardando uma resposta, que veio recentemente, numa entrevista dada por ele, na qual deu o recado de que iria participar do projeto. Novos contatos já foram feitos e Djavan vai conceder sua voz a uma das canções do CD entre os dias 18 e 22 de outubro, ou seja, daqui a poucos dias, em seu próprio estúdio.

Porém, nesse primeiro show, não será possível trazer todos esses artistas, então foi formada uma banda base, composta por Dudu Athayde – bateria, Felix Baigon – contrabaixo acústico e elétrico, assinando também a direção musical, Jiuliano Gomes – piano, teclado e loops, e Everaldo Borges – saxofones e flauta. Mas, com o intuito de deixar o público em contato com o clima do CD, serão acrescentados loops e samples, que são inserções sonoras, tais como efeitos, guitarras, vozes, percussões e instrumentos exóticos, como alaúde, cítara e tabla. No repertório, além dos 13 poemas, Mácleim vai tocar músicas de outros CDs de sua autoria, como Nigromantes, Outubro ou Nada e Internet Coco. Os convidados especiais serão: Leureny Barbosa, Wilma Araújo, Júnior Almeida e Wilson Miranda.

Processo de gravação do CD

Para a gravação do CD, foi feita uma pré-produção na casa de Jiuliano Gomes, por meio de um processo coletivo, no qual foram trabalhadas todas as idéias de Mácleim, que, apesar de ter a possibilidade de contar com softwares avançados, não abriu mão de um gravador de fita. Essas idéias foram passadas para Everaldo Borges, que as apresentou aos convidados. Depois eles foram para o Rio de Janeiro, onde gravaram as bases das músicas – bateria, baixo e piano acústicos, estabelecendo a configuração instrumental do projeto. Um detalhe interessante é que a gravação foi realizada da mesma forma que se fazia antigamente: Carlos Balla, Jiuliano e Felix Baigon, após vários ensaios, gravaram as canções do início ao fim, em tomadas definitivas e sem cortes, tocando juntos, como num show ao vivo – atualmente, os músicos tocam sozinhos e depois tudo é “costurado”. Em Maceió, foram gravados os metais, os loops e as vozes dos artistas convidados.

De volta ao Rio, eles iniciaram o processo de mixagem e masterização, que nada mais é que a finalização e a padronização do CD, uma atividade bastante cansativa, devido às infinitas possibilidades que lhes eram dadas para compor o projeto. Entretanto, segundo Felix Baigon, o clima em estúdio era sempre muito agradável e construtivo, não só pelo contato com músicos experientes, caso do baterista Carlos Balla, que já tocou com artistas renomados, como Gal Costa, Djavan, Chico Buarque e Caetano Veloso, mas pelo choque de idéias, que levava a discussões sobre a escolha do que era ou não relevante para a concepção do trabalho.

Ele e Mácleim destacam um incidente que ocorreu no arranjo de Quem, poema de Sidney Wanderley. Baigon se enganou e enviou Zumbi, poema de Jorge de Lima, para o arranjador Edu Morelenbaum. O lapso só foi notado quando eles foram ouvir a música, para saber como tinha ficado. O grande problema é que Zumbi já possuía um arranjo de metais – saxofone, trompete e trombone, elaborado por Jiuliano e Everaldo, e Morelenbaum, havia composto um arranjo de madeiras – clarinete, clarone e flautas. Após um período de caos e algumas análises das partituras, eles notaram que os arranjos casavam perfeitamente e utilizaram os dois. E Quem? ganhou um novo arranjo.

O projeto

Acostumado a embeber-se de diversas vertentes das artes como o cinema, as artes plásticas e, principalmente, a literatura, como de Nigromantes, composição cujo tema explícito é a obra Dom Quixote de La Mancha – de Miguel de Cervantes, Mácleim faz, em Esses Poetas, um mergulho no universo das expressões artísticas alagoanas, através das canções, dos poemas e da proposta de seu projeto, que une música, literatura e artes plásticas.

Para a composição do livro e do encarte do CD, ocorrerá um concurso de desenho, realizado em escolas públicas das cidades de origem dos poetas, cujo tema será a impressão que os estudantes tiveram ao ler os poemas e escutar as canções. Tal iniciativa é um incentivo à divulgação e ao estudo da literatura alagoana, a fim de promover o reconhecimento de seus produtos culturais e despertar novos talentos, nas três áreas de abrangência do projeto Esses Poetas - música, literatura ou artes plásticas. Além disso, haverá as biografias, que virão resumidas no encarte, e caricaturas dos poetas, feitas por Simone Cavalcante e pelo jornalista Ênio Lins, respectivamente. Todavia, tudo isso tem previsão para ser lançado em 2008, logo, o público terá apenas o show para contemplar, por enquanto.

Esses Poetas

Esses Poetas pode ser considerada uma produção de destaque, um estandarte da cultura alagoana. Sua primeira apresentação será no dia 09 de outubro, terça-feira, no Teatro Deodoro, às 19:30h. Como em todos os eventos que fazem parte da grade do projeto Teatro Deodoro é o Maior Barato, o ingresso custa R$ 2,00. Informações: 3315-5665

5 comentários:

Luiz Alberto Machado disse...

Parabens pelo blog! Parabens para o Mácleim! Estarei indicando nas minhas páginas.
Beijabrações
www.luizalbertomachado.com.br

Meyroca disse...

Oi Paula
prazer te conhecer
pena eu morar tão longe e não poder assistir a esses "cancioneiros da palavra"
conhece Paulino Vergetti? Poeta Alagoano? Visite-o no recanto das letras...Eu também modestamente estou lá
não deixe de me mandar notícias daí.
beijos fraternos pra ti

Edna disse...

Texto ótimo Paulinha. Adoro te ler!

kassianobre disse...

Oi Paulinha, só conheço vc e o tetereco por aqui...
olha lá: http://aissaknobre.blogspot.com/

bju

Sionelly Leite disse...

Adouro seus textos!

*.*


fã incondicional!

Parabéns, textos fantásticos!